Aquilo que sobra

Quando o que me perturba transborda, tento guardar aquilo que sobra

Vibrião

** Um pequeno conto**

Não conseguia mais sintetizar proteínas. Em seu atestado de óbito poderia constar “envenenamento por tetraciclina” caso bactérias tivessem esse costume de registrar seus mortos.

Vibrião, um “cara” tranquilo, pausado, pensavam seus filhos gêmeos, seus irmãos gêmeos e todos os seus idênticos parentes vibriões, ao ver a bactéria sem vida.

Por não estar habituado com a morte, esqueceu-se de beber do rio Lete. Lembrava-se de toda a vida, tudo o que fizera quando unicelular. Por descuido, errou uma esquina, não foi repreendido e reencarnou homem.

A sorte de todo homem que nasce é não saber. Não sabe ser. E mesmo morrendo sem saber ser, consegue se forçar a pensar que é, mesmo estando.

Vibrião não era homem, mas estava. Sabia ele que era outra coisa. Coisa que os homens chamavam bactéria. Vibrião chamava ser.

Quando recém nascido, Vibrião tinha epifanias de velhos. Nunca se sensibilizava com originalidade. Nunca aprendeu a viver como homem.

Tendo olhos perfeitos, nunca aprendeu a ver. Tendo ouvidos perfeitos, nunca soube escutar. Era um velho em corpo de criança.

Durou o que seus pais chamaram 5 dias. No seu atestado de óbito registrou-se insuficiência cárdio respiratória, mas isso não fora o motivo real. Vibrião morreu de nascer sabendo.

Meu amigo Wilson

Tom Hanks é um grande ator. O maior, segundo o meu colega de curso de ingês cujo nome eu não sei. Argumentou: “O cara contracenou com uma bola de vôlei e fez dela uma pessoa. Quem mais poderia fazer algo assim?”. Respondo perguntando: “Não fazemos isso diariamente?”

Este rapaz falava de Chuck, personagem de Tom Hanks, que sofrido um acidente se viu isolado em uma ilha. Passado algum tempo, alucinado pela solidão, Chuck faz de Wilson, a bola de vôlei, seu amigo.

Chuck “conhece” Wilson, ou melhor, existe um personagem (uma personalidade, uma pessoa) dentro de Chuck que responde e atua conforme Chuck acredita e interpreta que Wilson é.

O que “facilita” as coisas para Chuck é a inexistência de um Wilson real. Um Wilson para dialogar com aquele ideal da cabeça de Chuck.

Uma dos maiores embaraços que vivo é esse diálogo entre as pessoas “que conheço (a ideal)” e as pessoas “que são (a real)”. Como resultado a surpresa pode ser magicamente positiva ou terrivelmente negativa. Não reclamo das surpresas que não gosto porque sei que vem das mesmas mãos daquelas boas que tanto busco.

De todo modo, não troco minha imperícia e minhas topadas em testar meus “Wilsons” mal construídos pela certeza de um Wilson perfeito que é tão real e sólido quanto um pensamento. 

caixa de vidro

Os caça-fantasmas usam suas mochilas de prótons para trancar os espíritos; Os Deuses Olimpianos trancaram os titãs no tártaro; Os cristãos trancam seus demônios no inferno.

É um chavão, mas que nem por isso perde valor: Escrever ajuda a exorcizar seus espíritos.

Como numa consulta ao psicólogo, em que muito da sua melhora se dá pelo que você fala, pondo pra fora aquilo que te corrói, jogarei meus demônios nessa caixa de vidro.