Vibrião
** Um pequeno conto**
Não conseguia mais sintetizar proteínas. Em seu atestado de óbito poderia constar “envenenamento por tetraciclina” caso bactérias tivessem esse costume de registrar seus mortos.

Vibrião, um “cara” tranquilo, pausado, pensavam seus filhos gêmeos, seus irmãos gêmeos e todos os seus idênticos parentes vibriões, ao ver a bactéria sem vida.
Por não estar habituado com a morte, esqueceu-se de beber do rio Lete. Lembrava-se de toda a vida, tudo o que fizera quando unicelular. Por descuido, errou uma esquina, não foi repreendido e reencarnou homem.
A sorte de todo homem que nasce é não saber. Não sabe ser. E mesmo morrendo sem saber ser, consegue se forçar a pensar que é, mesmo estando.
Vibrião não era homem, mas estava. Sabia ele que era outra coisa. Coisa que os homens chamavam bactéria. Vibrião chamava ser.
Quando recém nascido, Vibrião tinha epifanias de velhos. Nunca se sensibilizava com originalidade. Nunca aprendeu a viver como homem.
Tendo olhos perfeitos, nunca aprendeu a ver. Tendo ouvidos perfeitos, nunca soube escutar. Era um velho em corpo de criança.
Durou o que seus pais chamaram 5 dias. No seu atestado de óbito registrou-se insuficiência cárdio respiratória, mas isso não fora o motivo real. Vibrião morreu de nascer sabendo.





